quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Lágrimas Ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

5 comentários:

  1. "E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguém as vê brotar dentro da alma!
    Ninguém as vê cair dentro de mim!"

    As três linhas que mais gosto de FBE

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  2. Alex: Sem dúvida... são as mais marcantes! ;) bjo

    Manuel:;) bjo

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  3. Belo poema este:

    Logo no início é referido o tempo em que era querida, tudo em seu redor era felicidade.
    Depois vem o desalento do seu ser de uma grande tristeza daquele tempo que era bom mas que agora pensando vagamente, torna a brandura de seu pensamento, calma num rosto embevecido dentro de si.

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguém as vê brotar dentro da alma!
    Ninguém as vê cair dentro de mim!


    Na imensidão de sua brandura de outrora, são lágrimas que ninguém vê, mas ela chora, porque elas, estão lá dentro de si..


    Gosto imenso desta poetisa que para mim é um marco que ficou na história da poesia.

    Bjos.

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  4. Aqui-Ali-Acolá... Fico completamente embebecida a ler o que escreves! ;) Este poema é dos meus preferidos.... Adoro como F.Espanca escreve... E os três últimos versos dizem tudo... Muitas vezes 'choramos' mas por dentro... na alma... e essas são as lágrimas mais dolorosas... porque ninguem as vê e ninguem as sente, para nos poder dar um abraço ou uma simples palavra de carinho! um bjo

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